leituras & fotografias: fragmentos de textos literários


Finisterra

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    O melhor é voltar atrás, ao começo de tudo. Há mil anos (ou mais), alguém repara atentamente numa garrafa cheia de água e descobre a primeira objectiva. Lá está a imagem da realidade, quando os raios solares passam através da água.
    A voz lenta do pai (uma lentidão excessiva). Espécie de exorcismo, que detém (demora) o essencial, que permite enfim analisá-lo? Não há sílabas soltas. Palavras sem fracturas, sem empastamentos: um bloco íntegro, mas distendido. Fala como se esticasse a massa espessa dos sons (que a respiração envolve num hálito de brandy). Levanta o cálice e bebe-o dum trago. Limpa a boca ao lenço tabaqueiro dobra-o pelos vincos iniciais, torna a metê-lo no bolso superior do casaco. (À mostra, fica apenas uma barra vermelha, desbotada pelo uso e o ferro de engomar). Estende a mão para o livro poisado na mesa de vinhático e procura a página exacta:
     - Como diz o compêndio de fotografia: a imagem apresenta um ordenamento inverso do real, mas captou-lhe os elementos essenciais.
    Ergue os olhos do livro e fita (através da vidraça) a paisagem deserta. Pode confrontar, sempre que lhe apetece, a fotografia (na parede, junto da janela) e a realidade exterior, a horas certas, sob a luz quase igual:
     - Mesmo ordenada ao contrário (quer dizer, de pernas para o ar), a imagem repete (com grande semelhança) areia, gramíneas, céu, lagoa, nuvens. E outros elementos, se os houver. Homens, cavalos, bois, carneiros, aves (por exemplo). Serão também captados na lente rudimentar da garrafa de água, quando aparecerem. A imagem não é perfeita (escapam-lhe alguns pormenores), mas foi o ponto de partida. Cálculos, sonhos, tentativas. Até à invenção das lentes, à possibilidade de surpreender as coisas sem grande margem de erro. E (mais tarde ou mais cedo) os seus enigmas.
    A criança espera com paciência. De súbito, julga ouvir nas palavras do pai o eco de uma voz e não a própria voz (soando onde?). O real outra vez às avessas. Pensa também num gume fulgurante (e ignora porquê). Relâmpago ao longe, sobre as dunas?     Nas dunas, ficam a pairar as aves brancas do desenho, nessa mesma tarde: desce ao jardim e o revérbero entre as nuvens dá início (pouco antes da chuva) à versão povoada da paisagem.
     - Lentes para fixar o grão de areia, o astro. Trazê-los tal e qual para dentro de casa, observá-los tão de perto que desprendam por fim as normas maiores e menores da sua arquitectura. Novo cálice de brandy (o quinto? o sexto?), bebido agora devagar, pondo de acordo o gesto e as palavras:
    - Magia, imaginação, limitam-se a colher o rigor submerso da realidade. Os números, a geometria, em que o mundo repousa.
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in Finisterra de Carlos Oliveira.
Obras de Carlos Oliveira, Editorial Caminho, Outubro de 1992.