leituras & fotografias: fragmentos de textos literários
Um Socialista Insociável
(...)
- Estávamos vendo estas gravuras quando o senhor entrou - disse sir Charles, desejoso de romper o silêncio. - Gosta deste género de trabalhos?
Passou-lhe um exemplar. Trefusis olhou para a gravura como se nunca tivesse visto coisa que se parecesse e não soubesse lá muito bem o que devia fazer daquele objecto.
- Estes traços afiguram-se-me que não têm significação nenhuma - afirmou ele, por fim, em tom de dúvida.
Sir Charles teve um sorriso desdenhoso e lançou um olhar significativo a Erskine. Este, tomado já por antipatia institiva para com Trefusis, disse com ênfase:
- Não há aí um único traço que não tenha significação.
- Este, por exemplo, que faz pensar numa pata de mosquito, que quer dizer?
Erskine hesitou por um instante e decidiu-se:
- Contudo, é claro, para mim, pelo menos. Esse traço indica uma estrada.
- Qual estrada! - replicou Trefusis. - Nunca houve nada disto numa estrada. É, talvez, uma péssima tentativa para representar uma silva, mas as silvas não rebentam nas estradas frequentadas, como parece ser esta, a julgar por estes carreiros exagerados.
Dizendo assim, pôs de parte a água-forte, indicando que não lhe interessava prosseguir o exame do álbum, e sentenciou:
- A única arte que me interessa é a fotografia.
Erskine e sir Charles trocaram de novo significativo olhar, e o primeiro contestou:
- A fotografianão é uma arte no sentido em que eu a compreendo. É um processo.
- Mas um processo muito mais perfeito e que dá menos incómodo que isto - disse Trefusis, designando a gravura.
- Os artistas conservam o processo antigo e bárbaro, difícil e imperfeito de gravar e pintar retratos unicamente para manter o monopólio do talento indispensável para a sua execução. Renunciaram ao método novo, mais complexo e mais perfeito, e, contudo, mais simples e mais belo da fotografia e dexaram-na em mãos de comerciantes, desprezando-a publicamente e não a utilizando senão às escondidas. O resultado é que os comerciantes se tornam melhores artistas que eles, e é natural, porque, onde o desenho não conta, como na fotografia, o pensamentoe o raciocínio contam por tudo; ao passo que nos processos da gravura e da pintura, onde é indispensável uma grande perícia manual para produzir qualquer coisa que os olhos toleram, a execução conta mais que o pensamento. E se um homenzinho capaz apenas de transportar tijolos às costas, ou qualquer coisa deste género, tiver bastante ambição e perseverança para exercitar a mão e avançar nos segredos da arte, o senhor não consegue fazê-lo voltar à antiga profissão, porque as mãos perfeitamente exercitadas são raras. Veja-se a prova na literatura. Os nossos livros são manualmente a obra dos impressores e dos fabricantes de papel. O senhor pode cortar a mão a um escritor; nem por isso ele deixa de ser tão bom escritor como antes. Qual é o resultado? Há mais imaginação num número qualquer de um jornal barato que em meia dúzia de telas da Academia Real de Pintura. Nenhum autor pode viver do seu trabalho se tiver a cabeça tão oca como um pintor de êxito regular. Veja ainda os nossos instrumentos de música, os nossos pianos, por exemplo. Ninguém, excepto um acobrata, passará de boa vontade anos e anos a exercitar-se num jogo de paciência mecânica difícil, como um teclado, e então devemos as nossas impressões das sonatas de Beethoven a acrobatas que rivalizam entre si de rapidez nos seus "prestos" e de resistência no pulso esquerdo. Homens clarividentes não passarão a vida na ambição de alcançar habilidade de mãos. Invente um piano que responda tão delicadamente à rotação de um pulso como aqueles que nós temos respondem aos dedos e os acobratas voltarão aos seus tapetes e trapézios, porque a única faculdade necessária ao músico executante será a faculdade musical e nenhuma outra lhe permitirá ter um auditório.
Ficaram todos como que esmagados por este discurso inesperado. Sir Charles, sentindo que semelhantes pontos de vista lhe eram desfavoráveis e não significavam mais que iconolatria e estreiteza de espírito, estava a ponto de responder em tom azedo, quando Erskine lhe tomou o passo, perguntando a Trefusis que ideia fazia do futuro das artes. Este último respondeu prontamento:
- O aperfeiçoamento da fotografia a cores recentemente descoberta. Os quadros históricos substituídos por fotografias de tableaux vivants executados e ordenados por actores e artistas bons conhecedores do seu ofício e servindo, principalmente, para a instrução das crianças. Nove décimos das pinturas, tais como as compreendemos presentemente, eclipsadas pela concorrência destas fotografias, e o décimo restante a manter-se à força de uma extraordinária concorrência!
Os nossos órgãos e pianos desafinados, e incapazes de servir, substituídos por instrumentos harmoniosos tão fáceis de manejar como realejos! As obras de ficção substituídas por reuniões e conversas de pessoas interessantes e tornadas antigas para o espírito humano, que terá excedido a fase dos encantamentos infantis por estes contos descritos por essas grandes crianças que são os romancistas e os da sua espécie! O fim desta louca confusão, conhecida pelo nome de Arte, tolices e imposturas das nossas horas de recreio com métodos mais elevados de ensinar aos homens a conhecerem-se a si próprios. Todo o artista considerado como amador e o regresso lógico a esse velho e são costume de considerar todos os homens que fazem da arte o seu meio de existência como vagabundos que não devem ser acolhidos como iguais pelos homnens honestos.
(...)
in Um Socialista Insociável de Bernard Shaw.
Tradução de Penha Coutinho.
Editorial Minerva, Lisboa, Outubro de 1972.