A Primeira Dama
...Para receber a mais alta entidade do país vizinho Armandina estreara uma capa de penas forrada de cetim lilás que lhe cobria os ombros desnudados pelo ousado vestido de lamé e pusera pela primeira vez a tiara que o marido lhe tinha oferecido ao cabo daqueles dois anos de árdua governação.
Na tarde anterior pousara durante uma hora perante o fotógrafo local (que remédio senão contentar-se com os pequenos recursos do meio!) estudando com ele a posição e os mínimos detalhes de composição, ajudando-o a fazer aquilo a que chamava uma fotografia oficial. Era preciso procurar a melhor linha do seu perfil, estudar uma atitude nobre sem ser empertigada, não descurar o cair da capa e da roda do vestido... Enfim, as más línguas da terra é que disseram depois, quando, já extemporâneamente, o grande retrato apareceu na montra da fotografia, que era uma rídicula imitação da rainha Mary cujo porte e dignidade Armandina sempre olhara e gabara com a maior admiração.
Disseram porque era verdade e principalmente porque Armandina inesperadamente caíra, de um momento para o outro, do seu alto pedestal, e do papel de deusa que desempenhara já só restava aquele testemunho colorido, por ora ainda encaixilhado na grande moldura dos retratos de honra.
in Álbum de Marta de Lima..
Guimarães Editores, Lisboa, 1962.