Verão

O la minute do outro lado da rua. Uma sobrevivência de outras eras, Un quaternário da alma. Ao lado do tripé e da enigmática caixa de madeira escura, um desusado cavalo de madeira igualmente escura. O homem afadiga-se à volta da máquina. Banhistas circulam curiosos. Deixam-se fotografar. Um olho mecânico engole famílias inteiras. Uma baleia ávida aniquila a luz, sitia o instante, o brilho do mar em fúria. Sobrevém uma certa calma de cenário. Desaparecem os banhistas. Úteis são estas máquinas. Tão antigas e tão úteis. A peçonha das praias desaparece sem deixar rasto. A pequena vaidade de fim de semana como isco. Maravilhoso isco. Dissipa-se a tarde. O exterminador recolhe a caixa. Detém-se sobre o cavalo como se com ele conversasse ternamente.
Um vento forte levanta uma língua de areia que se abate.

in Angst de Luís Quintais..
Livros Cotovia, Lisboa,2002.