leituras & fotografias: fragmentos de textos literários
Sobre uma imagem de guerra
Já vimos
todas as imagens de Varsóvia
da Somália ou de Saigão.
Vimos
todos os gritos de terror
da criança a preto e branco
a branco e preto
a preto e sangue
a criança que ficou desmembrada na cratera da imagem
convocando para sempre
os navios da demência e da vergonha.
Já vimos
imagens de todas as guerras
em todos os cantos da geografia do pavor.
Mas o cheiro não vem nas imagens.
Digo o cheiro azedo.
O insuportável cheiro a medo e morte
o cheiro a carne a arder
o cheiro a ódio que desliza pelo metal bem oleado
e retalha a carne jovem
até dela só restar
dor e lama negra
negra lama e dor.
As imagens que já vimos
trazem o olhar vazado
e frente a elas
os poemas são inúteis.
Para lá da composição,
do papel, do grão,
no sítio do precipício
pnde Munch enlouqueceu,
todas as palavras são crucificadas
e todos os nomes naufragam no vitríolo
e as pétalas da rosa
caminham estupefactas
para dentro da podridão.
in Poemas da Linha da Frente de José Fanha..
Editora Ausência, Porto, 2003.