leituras & fotografias: fragmentos de textos literários


Cem Anos de Solidão

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Enquanto Macondo celebrava a reconquista das recordações, José Arcadio Buendía e Melquíades sacudiram o pó à sua velha amizade. O cigano ia disposto a ficar na aldeia. Estivera na morte, com efeito, mas regressara porque não tinha podido suportar a solidão. Repudiado pela sua tribo, desprovido de todas as faculdades sobrenaturais como castigo pela sua fidelidade à vida, decidiu refugiar-se naquele recanto do mundo que a morte ainda não tinha descoberto, dedicado à exploração de um laboratório de daguerreotipia. José Arcadio Buendía nunca tinha ouvido falar desse invento. Mas quando se viu a si próprio e a toda a família plasmados numa idade eterna sobre uma lâmina de metal azulado, ficou mudo de espanto. Datava dessa época o daguerreótipo oxidado em que se via José Arcadio Buendía com o cabelo eriçado e grisalho, uma camisa de colarinho engomado fechado por um botão de cobre e uma expressão de solenidade deslumbrante, e que Úrsula descrevia rindo à gargalhada como "um general assustado". Na verdade, José Arcadio Buendía estava assustado nessa manhã clara de Dezembro em que lhe fizeram o daguerrótipo, porque pensava que as pessoas se iam gastando a pouco e pouco à medida que a sua imagem fosse passando para as placas metálicas. Por uma curiosa inversão do habitual, foi Úrsula quem lhe tirou aquela ideia da cabeça, e foi também ela quem esqueceu antigos azedumes e decidiu que Melquíades ficasse a viver lá em casa, ainda que nunca viesse a permitir que lhe fizessem um daguerreótipo, pois (segundo as suas próprias palavras textuais) náo queria ficar para troça dos netos. Naquela manhã vestiu as crianças com as suas melhores roupas, empoou-lhes a cara e deu uma colher de xarope de tutano a cada uma para que conseguissem ficar completamente imóveis durante quase dois minutos diante da aparatosa máquina de Melquíades. No daguerreótipo familiar, o único que alguma vez existiu, Aureliano apareceu vestido de veludo preto entre Amaranta e Rebeca. Tinha a mesma languidez e o mesmo olhar clarividente que haveria de ter anos mais tarde diante do pelotão de fuzilamento.
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in Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez.
Tradução de Margarida Santiago
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1997.