Cornell Woolrich

(…)
O Mike’s Tavern, às nove e trinta da manhã, não tinha um aspecto muito social. Na verdade, não seria muito convidativo, mesmo que não houvesse ocorrido ali havia pouco tempo
um crime de morte. À sua frente estava parado um carro da polícia. E da figura inequívoca e levemente repulsiva de um rabecão, saía em parte, como uma língua avarenta, um ataúde. Havia um pequeno ajuntamento de curiosos, que um único guarda civil dividia em dois grupos, abrindo uma larga passagem à entrada. O interesse dos espectadores não era grande e, quando Burgess chegou, declinava visìvelmente. Era a hora de pegar ao serviço.
Um segundo guarda deteve-o logo que ele entrou na taberna. Burgess exibiu a sua carteira de jornalista, mas o guarda continuou a bloqueá-lo.
– Dê um jeitinho amigo – disse Burgess, lisonjeiro.
– Vou ver o que ele diz – condescendeu o guarda.
Mergulhou a cabeça e um ombro no interior do bar. e tornou a retirá-los.
– Ele diz que está bem – anunciou.
Burgess entrou. Lá dentro estava tão sombrio e depressivo como só nos interiores desses lugares podem ser àquela hora. Havia uma porção de homens, mas não estavam a beber e a sua presença não contribuía para animar o recinto. Pequenas vidraças coloridas – vermelho, azul e verde – davam à claridade exterior um aspecto de crepúsculo. Estavam acesas duas lâmpadas fortes; sem elas, teria sido impossível ver alguma coisa para quem viesse da rua. Na parede, um grande relógio anunciava 9,32 horas. O indicador da caixa registadora marcava 20 cents. Um detective disse:
– Bem agora afastem-se e deixem-me fotografar os copos.
Havia dois copos solitários, abandonados em cima do balcão, no lado dos fregueses; e estavam bastante próximos, como se os desaparecidos clientes se tivessem sentado em bancos contíguos. Havia também um homem de gatas em cima do balcão, como um macaco; focava uma espécie de câmara fotográfica sobre a estreita passagementre o balcão e a parede. Fez-se um clarão azulado e em seguida o homem voltou-se e saltou para o lado de fora do balcão. Passou a visar os copos, baixando-se até ficar ao nível deles. Outro clarão. Em seguida ergueu o busto e foi-se embora.
(…)
in “O Repórter” de Cornell Woolrich.
“26 grandes mestres da literaura policial, Ross Pynn antologia policial”, Editorial Ibis, Lda, Maio de 1963.

